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O samaritano interrompido

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Era um dia qualquer de uma semana qualquer. O moço acordou para cumprir seus afazeres simples do cotidiano: escovar os dentes, pentear os cabelos, comprar pão e leite para o café da manhã.

Era um dia qualquer de uma semana qualquer. O desabrigado acordou outra vez na rua. O filho pequeno chorava e não havia muito que ele pudesse fazer. A desesperança precisava ser vencida pela vontade de viver. Talvez nem tanto pela vontade, mas ainda mais pela necessidade de viver.

Era um dia qualquer de uma semana qualquer. Os fiscais do mercado acordaram para cumprir o seu triste destino e ganhar o seu pão no fim do mês.

O moço saiu de sua casa para cumprir os afazeres simples do cotidiano. Comprar pão e leite para o café da manhã. Entre ele e o pequeno mercado, estava o desabrigado.

 

- Moço.

E a voz do desabrigado saía quase como que um sussurro, os olhos não ousavam olhar diretamente na direção daquele a quem se dirigia.

- Moço

- Hum?

- Eu tô com meu filho pequeno na rua. O senhor compra leite e pão para ele?

O moço, um pouco indiferente e não exatamente muito bem-humorado, fez uma proposta absurda:

- Entra comigo no mercado, eu compro o teu pão e teu leite e você me diz se precisa de mais alguma coisa.

E o desabrigado o seguiu. Sempre com o olhar voltado na direção dos seus dedos do pé.

- Põe seis pães para mim num saco, e mais dez em outro separado, por favor.

E enquanto o moço aguardava, um burburinho do seu lado. O desabrigado, havia sido cercado pelos fiscais do mercado que estavam a ponto de colocá-lo para fora.

- Ele sempre vem aqui e fica causando baderna.

Depois de expulso o baderneiro, silenciosamente o fiscal veio falar com o moço:

- Se você quer fazer a tua boa ação, a tua caridade, tudo bem. Só não dá pra entrar com ele aqui dentro.

Na saída, o moço entregou os pães e o leite ao desabrigado, que envergonhado que estava, fez da sua voz pouco menos que um sussuro para agradecer. Os olhos ainda voltados na direção dos dedos do pé.

E o moço não ficou completamente feliz. Nem o desabrigado. Nem os fiscais do mercado.

Última atualização em Dom, 04 de Abril de 2010 05:06  

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